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    Home » Estudo inédito avança no tratamento da doença de Chagas – 17/02/2026 – Equilíbrio e Saúde
    Saúde

    Estudo inédito avança no tratamento da doença de Chagas – 17/02/2026 – Equilíbrio e Saúde

    AGENCIA CAFPor AGENCIA CAFfevereiro 17, 2026Nenhum comentário6 minutos de leitura0 Visualizações
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    A doença de Chagas integra o grupo de doenças tropicais negligenciadas, um termo usado pela comunidade científica para definir um conjunto de enfermidades que afetam mais de um bilhão de pessoas no mundo, principalmente em regiões vulneráveis, mas que ainda recebem pouco investimento em pesquisas e na busca por novas formas de tratamento.

    A OMS (Organização Mundial da Saúde) estima que mais de 7 milhões de pessoas estejam infectadas com a doença, a maioria delas na América Latina.

    Em janeiro deste ano, por exemplo, a cidade de Ananindeua, no Pará, entrou em estado de atenção ao registrar um surto da doença de Chagas. Foram quatro mortes e 40 casos confirmados até a publicação desta reportagem.

    A possível causa da contaminação envolve o manejo do açaí, fruta típica da região e que compõe a base alimentar das populações amazônicas. Um projeto global de pesquisa, que teve participação de cientistas da Unesp (Universidade Estadual Paulista), procurou avançar no entendimento do melhor tratamento para a insuficiência cardíaca, condição que representa o principal risco de morte para pacientes com a doença. O trabalho foi o primeiro na literatura científica a contemplar exclusivamente participantes chagásicos.

    O estudo, denominado Parachute-HF, teve como principal objetivo entender a eficácia e segurança de dois medicamentos usados no tratamento da insuficiência cardíaca resultante da doença de Chagas: o sacubitril/valsartana e o enalapril. O ensaio clínico randomizado reuniu 83 centros de pesquisa de quatro países latino-americanos (Brasil, Argentina, Colômbia e México) e um total de 922 pacientes chagásicos. Os resultados foram publicados no Journal of the American Medical Association (JAMA).

    A doença de Chagas apresenta duas vias principais de contágio. Uma é por meio da transmissão vetorial, em que o inseto barbeiro, no ato da picada, deposita fezes contaminadas com o protozoário Trypanosoma cruzi na pele e, ao se coçar, o indivíduo introduz o parasita na corrente sanguínea.

    A outra é pela transmissão oral, a partir do consumo de alimentos com fezes e urina do inseto infectado. Autoridades sanitárias suspeitam que essa tenha sido a via de contágio que desencadeou o surto na cidade paraense. A existência dessa segunda via faz com que sejam determinantes para a transmissão da doença fatores como saneamento básico, habitação e degradação ambiental.

    Particularidades da insuficiência cardíaca em chagásicos

    Após o contágio, a doença de Chagas pode se manifestar com febre prolongada, dor de cabeça, fraqueza intensa e inchaço no rosto e pernas, sintomas característicos da fase aguda. Mas também pode ser assintomática por anos. Se a pessoa infect ada não receber tratamento adequado, pode desenvolver a fase crônica, com complicações em órgãos do trato digestivo e no coração, levando à insuficiência cardíaca, a principal causa de morte relacionada à doença.

    Os pesquisadores do projeto argumentam que a insuficiência cardíaca em chagásicos foge ao padrão observado nos demais pacientes que sofrem com a enfermidade, uma vez que eles nem sempre apresentam comorbidades como hipertensão, diabetes ou doença coronária, condições comuns para esse perfil de pacientes cardíacos.

    Por outro lado, apresentam alta morbidade e baixa qualidade de vida. As características particulares dessa população faz com que esse grupo não seja corretamente representado nos estudos sobre insuficiência cardíaca, deixando uma lacuna sobre o tema na literatura científica.

    A médica cardiologista Silméia Garcia Zanati Bazan, professora da disciplina de cardiologia no Departamento de Clínica Médica, da Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB), da Unesp, foi uma das investigadoras brasileiras que participou do estudo.

    “O tratamento padrão para insuficiência cardíaca inclui o sacubitril/valsartana e o enalapril, de uso recorrente e eficazes para outras etiologias de insuficiência cardíaca. Mas esses medicamentos ainda não haviam sido testados especificamente em pacientes com doença de Chagas de forma robusta”, explica a docente.

    A partir do protocolo definido para o estudo, liderado pelo professor Renato Delascio Lopes, da Duke University, nos Estados Unidos, a docente da Unesp atuou junto ao Hospital das Clínicas de Botucatu e à Unidade de Pesquisa Clínica da FMB para fazer o recrutamento de participantes, acompanhá-los durante o uso da medicação, coletar e discutir os resultados obtidos.

    Triagem dos pacientes e metodologia

    Segundo Silméia, a maior parte dos pacientes selecionados para o estudo já era acompanhada nos ambulatórios da faculdade, mas era necessário que se encaixassem em alguns pré-requisitos. Dentre eles, a confirmação do diagnóstico de oença de Chagas e a ocorrência de insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida. Esse termo significa que a capacidade do coração para bombear o sangue deveria estar abaixo de 40%. Também era obrigatório que se identificasse a presença do biomarcador NT-proBNP em nível elevado no organismo. Esse biomarcador é importante no monitoramento da insuficiência cardíaca, uma vez que ele é liberado pelo organismo quando o coração não consegue bombear o sangue e dilata.

    Depois de submetidos a essa triagem, os pacientes foram distribuídos de forma randomizada em dois grupos: um seria tratado com sacubitril/valsartana (200 mg duas vezes ao dia) e outro com o enalapril (10 mg duas vezes ao dia). Durante 12 semanas, os participantes fizeram uso da medicação estabelecida e passaram por avaliação.

    Os pacientes eram acompanhados periodicamente para avaliar se não haveria descompensação da insuficiência cardíaca, com exames clínicos e laboratoriais. “Alguns exames eram realizados nos laboratórios do Hospital das Clínicas e algumas coletas eram enviadas para análise externa. Ao fim das 12 semanas, os resultados foram analisados e enviados para o líder do estudo, para serem discutidos junto aos demais centros de pesquisa”, afirma Silméia.

    As análises mostraram que ambos os medicamentos são efetivos para pacientes chagásicos. No entanto, observou-se uma redução expressiva nos níveis do biomarcador NT-proBNP no organismo dos pacientes que fizeram uso do sacubitril/valsartana.

    O resultado sugere que há uma tendência de redução de desfechos clínicos como mortalidade cardiovascular e hospitalização por insuficiência cardíaca para esses pacientes. “Esse é o primeiro grande ensaio clínico desenhado especificamente para pacientes com insuficiência cardíaca chagásica. Pela primeira vez, foi possível trazer evidências robustas sobre a eficácia de uma classe moderna de medicamentos em uma população negligenciada”, afirma a professora da Unesp.

    Resultados de impacto global

    Para Silméia, o caráter pioneiro do estudo e dos resultados tem o potencial de causar um impacto global, mesmo tratando-se de uma doença regional. “A doença de Chagas está cada vez mais impactando novas localidades devido à migração populacional”, argumenta. Estima-se que em áreas não endêmicas, como América do Norte, Europa, Ásia e Austrália, existam atualmente quase 400 mil pessoas infectadas que podem potencialmente transmitir a doença por meio de transfusão de sangue, doação de órgãos ou gravidez.

    A pesquisadora também destaca a importância de a universidade integrar um estudo com reconhecida visibilidade internacional e relevância científica e social. “O Parachute-HF representa um marco significativo na pesquisa sobre a doença de Chagas uma vez que os resultados podem orientar futuras diretrizes terapêuticas, fortalecer políticas públicas de saúde e originar novos ensaios clínicos multicêntricos de alta qualidade em doenças raras ou negligenciadas e em países em desenvolvimento”, afirma.

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