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    Home » Série sobre Raimundos vai do hedonismo à conversão de Rodolfo
    Cultura

    Série sobre Raimundos vai do hedonismo à conversão de Rodolfo

    AGENCIA CAFPor AGENCIA CAFmarço 29, 2026Nenhum comentário7 minutos de leitura5 Visualizações
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    O leitor com mais de 25 anos provavelmente se lembra do fenômeno chamado Raimundos, uma banda de punk-rock que surgiu nos anos 80, tornou-se campeã de vendas, venceu prêmios importantes da música e quase desapareceu em 2001. O conjunto era a representação nacional dos rebeldes que viviam de sexo, drogas e rock’n’roll, mas desapareceu subitamente com a conversão do seu vocalista, Rodolfo Abrantes, ao cristianismo.

    A história foi pesquisada e transformada em cinco episódios pelo diretor e roteirista Daniel Ferro, na série documental Andar na Pedra: A História dos Raimundos, que acaba de ser lançada pela Globoplay.

    Para Daniel, que tem em seu currículo documentários como Rock In Rio 30 Anos (2015) e Tudo pela Música: Os 20 Anos da Deck (2019), foi como entrar numa mina de carvão mineral, transformar o minério num diamante bruto, lapidá-lo até se transformar numa joia rara, digna de uma exposição.

    A série tem cinco episódios, cada um com 55 minutos de duração em média. Não seria muito? A resposta está em dezenas de horas de depoimentos com os integrantes da banda e outras dezenas de imagens de vídeos gerados ao longo da criação da banda, com shows, viagens, além de fotos que registravam o nascimento, a vida e o declínio (pós-Rodolfo) da banda, cujo nome é uma homenagem aos americanos Ramones.

    Mesmo não deixando claro, a série é basicamente uma resposta ao público que seguiu esse grupo de punk rock e não entendeu a sua separação. A sutileza começa mostrando Rodolfo Abrantes, vocalista e criador das letras mais insanas e divertidas da banda, saindo de sua casa com sua prancha para pegar uma onda. A ligação com o mar, aliás, segue Rodolfo do começo até o final da série.

    Documentário acompanha os Raimundos desde começo da banda

    Para mostrar como foi o surgimento dos Raimundos, Daniel Ferro seguiu a simples regra de contar cronologicamente, através dos depoimentos e imagens da época ,como o pai de Rodolfo introduziu as sátiras musicais nordestinas de forró cantadas por Zenilton. Ele bebeu na fonte para criar um rico repertório que iria ser explorado ao longo da formação da banda e posteriormente, na criação do primeiro disco.

    Neste primeiro episódio, o público conhece como Digão, Canisso e Fred foram entrando lentamente nessa nova banda que começava a mostrar a que veio nas incontáveis apresentações de punk rock no underground do Distrito Federal. É um episódio que também mostra como começaram a usufruir de cannabis para diversão, sedução e alucinação. No começo, como relata Rodolfo, era um barato que ajudava na criatividade e, em alguns casos, no sexo.

    Sexo e maconha estão presentes nas primeiras músicas gravadas em antigas fitas cassete, e que serviram de base para o primeiro disco oficial dos Raimundos, lançado em 1994. O repertório, cheio de letras impublicáveis, consolidou a banda como um símbolo do hedonismo juvenil.

    E é aí, que o documentário começa a mostrar que o sucesso tem um preço, como definem alguns dos entrevistados ao longo dos cinco episódios. A banda saiu das fitas demos com suas músicas e letras fora do comum, misturando forró com punk rock, para o primeiro CD, gravado num belo estúdio e distribuído pelo selo alternativo da Warner Music, Banguela Records. Com ajuda da gravadora, os Raimundos começaram a aparecer na mídia, suas músicas tocando em rádios além das especializadas em rock. De 20 mil discos previstos, o primeiro Raimundos chegou na casa das 200 mil cópias vendidas.

    Documentário tem linguagem despudorada

    Quando Peter Jackson, o responsável pelo sucesso da Trilogia de O Senhor dos Anéis, produziu a minissérie documental The Beatles: Get Back (2021), ele pressionou a Disney a não se incomodar com o vocabulário repleto de palavrões entre os componentes da banda. Afinal, o grupo jovem estava livre, leve e solto para criar um de seus grandes sucessos, e mesmo com várias câmeras acompanhando Paul, John, George e Ringo, o papo rolava sem qualquer tipo de amarras.

    Essa tese é importante para entender tudo o que aconteceu durante a produção do documentário sobre os Raimundos, que não recomendou aos entrevistados algum tipo de restrição em seus depoimentos. Papo reto, sem censura. A linguagem é importante para ajudar a entender até mesmo o processo criativo da banda quando começaram a pensar no segundo disco, agora mais uma obrigação contratual com o estúdio do que com o crescente número de fãs a cada novo show.

    O melhor exemplo disso é a discussão sobre um momento ocorrido num dos shows quando Canisso, o virtuoso baixista da banda, grita no microfone “Eu quero ver o Oco”. Rodolfo explica que era isso que precisavam para voltar ao chão depois de estarem levitando no sucesso recente, para compor as músicas do segundo disco, Lavô tá Novo. O conjunto da obra serviu para garantir outro sucesso de público nos shows, na venda de quase 400 mil CDs, e abrir caminho para outro veículo importante para a consolidação do sucesso da banda, os videoclips da MTV. E mais: o disco foi importante para que o jovem público feminino também descobrisse os Raimundos.

    É possível afirmar, sem qualquer margem de erro, que o trabalho de reunir depoimentos, imagens e momentos que a banda viveu durante o seu apogeu e queda foi muito mais do que importante para registrar a história dos Raimundos. Daniel Ferro conseguiu construir não apenas uma visão geral para fã nenhum botar defeito, como também um painel de emoções contidas entre os próprios membros da banda, que nunca entenderam ao certo a velha frase do primeiro filme do Homem-Aranha (2002): “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. Substitua poderes por sucesso que você vai chegar ao fim do documentário entendendo os Raimundos.

    Conversão de Rodolfo é ponto-chave do documentário

    Andar na Pedra: A História dos Raimundos, aparentemente, não foi imaginado apenas para contar a trajetória de uma das grandes bandas de rock que já pisaram no Brasil e em outros continentes. Sim, é historicamente rico em informações para fã nenhum botar defeito. O principal, contudo, é mostrar como a saída de Rodolfo e sua descoberta religiosa impactaram os Raimundos no trabalho. Não foi uma decisão como a briga de John e Paul. Foi algo muito mais profundo, que transformou a vida pessoal de Rodolfo de uma forma jamais imaginada em qualquer outra adaptação dramática de astros da música como Freddie Mercury em Bohemian Rhapsody (2018) ou Elton John em Rocketman (2019).

    O espectador é conduzido capítulo a capítulo até o momento em que Rodolfo conta sua história iniciada durante a turnê pelo Japão em julho de 2000. No mesmo período, os Raimundos estavam fazendo campanha de divulgação de seu primeiro show ao vivo na MTV, que seria lançado em DVD naquele ano. As revelações feitas pelo compositor são confirmadas pela esposa Alexandra, outra figura importante na vida de Rodolfo.

    As revelações podem chocar os menos religiosos, uma reação que é possível testemunhar quando Rodolfo decide abandonar a banda em 2001. As reações e os acontecimentos desse ato reverberam no último episódio, enfatizando o drama vivido pelo resto da banda. Com as mágoas expostas, o futuro parecia incerto para todos os envolvidos, algo que vai muito além das relações comerciais da banda com a Warner Music.

    Rodolfo é a ligação com todo o universo dos Raimundos. O documentário ressalta isso com depoimentos fortes, revelando a sua frustração de não poder voltar ao passado para evitar tudo o que sofreu durante todos os anos como vocalista da banda. Isso inclui seu hábito com a cannabis e outras drogas consumidas.

    Como registro histórico, Andar na Pedra: A História dos Raimundos é um livro aberto sobre o rock brasileiro, construído com humor e criatividade, por um grupo que saiu da escuridão de Brasília para ganhar os holofotes do resto do Brasil. É um documentário que tem muito o que contar, e o faz de forma competente.

    FONTE

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